Carta a quem vier a encontrar estas palavras, escrita por Dumbledrogas, viajante errante e cronista de terras longínquas
Senhor ou Senhora,
Depois de longa e penosa navegação, por mares nunca dantes navegados, chegamos a terras que até então me eram por completo desconhecidas. Este novo continente, de natureza tão diversa da nossa, acolheu-nos com espantos e maravilhas que vós bem merecíeis presenciar com os próprios olhos.
Logo ao desembarcar, notei que os naturais deste solo vivem em costumes muito diversos dos nossos. Parecem gentes de grande inocência, mas com traços de engenho surpreendentes. Há entre eles criaturas que falam como homens, ainda que em forma se assemelhem a animais, o que me pareceu coisa de sonho ou fantasia — mas era tudo real.
Logo que pus os pés em terra firme, dei com um edifício de aparência simples e desordenada, que me pareceu, à primeira vista, um templo ou casa de culto. Entrando nele, fui informado que se tratava de uma guilda — espécie de confraria de aventureiros e mercadores — à qual humildemente pedi ingresso. Aceitaram-me com agrado, e ali tive contato com alguns dos habitantes e pude melhor compreender seus modos e maneiras.
É hábito entre eles o ofertar de dádivas como forma de saudação e pacto. Foi-me oferecida, como boas-vindas, uma fruta de sabor tão delicioso que mal poderia descrevê-la com justiça. Em seguida, ao selar parceria com os mesmos, recebi uma nova fruta — desta feita podre — o que, por meus próprios olhos e entendimento, deduzi revelar certa reverência à morte, a qual parece ocupar lugar de grande importância em sua cultura.
Depois de breve trato entre os membros da companhia, decidimos empreender jornada em busca de tesouros e recursos de valor. Contávamos com dois cavalos, um anão cuja lucidez era turvada por vapores de ervas entorpecentes, e outros companheiros de variadas sortes. Partimos rumo ao mar, pois julgávamos que tal caminho nos daria melhor posição e abrigo.
Horas passadas, deparamo-nos com novo grupo de nativos, os quais rendiam culto a uma árvore já sem vida — outro sinal do apreço que esta gente tem pela morte. Um de nossos, aparentado com aquele povo, tomou parte na cerimônia e, em virtude disso, recebemos deles pousada, alimento e saber valioso sobre os perigos da região.
Soube-se que a aldeia dos seus havia sido tomada por criaturas estranhas — grandes como homens, mas com feições de lagartos e ferrões onde se espera cauda. Determinamos seguir por veredas montanhosas e cobertas de selva espessa. E após dura travessia, chegamos a uma falésia onde o mar bramia feroz contra a pedra. Um pouco adiante, achamos uma construção escavada na montanha, obra de mão diligente e antiga. Era, sem dúvida, o destino que buscávamos.
Forçamos entrada por uma das portas de madeira rangente. Dentro, o silêncio era absoluto. A primeira câmara que exploramos estava vazia, apenas pedra, poeira e sombras. Na segunda, porém, fomos surpreendidos por três das criaturas descritas — dois de aspecto comum e um de feição guerreira. Recordando o relato dos dançarinos da árvore, deduzi que tal povo se organiza em castas, possuindo talvez uma Rainha em posição superior, embora não a tenhamos avistado. Por arte de surpresa os espantamos, sobrevivendo sem maiores danos.
Noutra sala, encontramos um pilar com sinais de magia protetora. Graças à providência, portávamos o contrato necessário para decifrá-lo, e pude copiar seu saber para uso futuro.
Adiante, mais inimigos nos espreitavam — mas, com uso de uma língua arcana dos povos marítimos, nosso companheiro os acalmou e soube deles que um tipo de cera bronzeada extraída de insetos era, para eles, tesouro de grande estima. Contaram-nos que haviam deixado o mar para buscar morada em terra firme.
Tomamos um como guia. Ele nos conduziu a um altar onde jazia uma efígie de bronze, de feição nobre e aparência preciosa. Ali, uma emboscada nos aguardava: três guerreiros surgiram com violência. A luta foi feroz — houve erros, houve sorte, houve destreza e muita vontade de viver. O carisma que me coube, a pontaria com pedras que o céu me concedeu, a força e engenho de meus irmãos, e a desventura ocular de nossos oponentes garantiram nossa vitória.
Retornamos à guilda sãos e providos de riquezas. Os ganhos foram bons, e o aprendizado, maior ainda.
E com isso, dou por encerrada esta minha carta, esperando que, seja quem for que a leia, veja nestas linhas reflexos da grandeza das terras além-mar.
De vosso incerto e muito humilde servidor,
Dumbledrogas, pelo jogador Elias